Samba da Mangueira homenageia Marielle e aborda “páginas ausentes”

Para um dos autores do samba Tomaz Miranda, o carnaval é político, libertador e pode contribuir para derrotar o fascismo

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Brasil de Fato
23/10/2018 13:40 atualizado em 23/10/2018 15:58

A história do Brasil que a História não conta será tema da Mangueira para o Carnaval de 2019. Do enredo “História pra ninar gente grande”, do carnavalesco Leandro Vieira, nasceu o samba “Brasil chegou a vez de ouvir Marias, Mahins, Marielles e malês”, em referência à Luiza Mahin, uma das líderes da Revolta dos Malês, no século 19, e à vereadora Marielle Franco (Psol), assassinada em março deste ano no Rio de Janeiro. 

No desfile da Sapucaí de 2019, a Mangueira se propõe a contar uma “outra versão” das nossas “páginas ausentes”. “A história do Brasil foi transformada em uma partida de futebol na qual torcemos para quem ganhou e esquecemos que na torcida pelo vitorioso os vencidos fomos nós”, diz o enredo.

Em conversa com o Brasil de Fato, Tomaz Miranda, um dos autores do samba, ao lado de Deivid Domênico, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino, contou que a canção não é apenas sobre o presente, mas como vamos tratar no futuro os nossos verdadeiros heróis do presente.

“A ideia de retratar Marielle como uma heroína é questionar como o Brasil vai tratar o caso dela. Se a gente vai repetir o que a gente fez com Luiza Mahin, com Dandara e com outros heróis que foram apagados da História. Até por não registrarmos da maneira devida nossos verdadeiros heróis é que estamos nesse momento conturbado de conjuntura política, correndo atrás do próprio rabo”, explica Tomaz Miranda.

Carnaval: político e libertador

O coautor do samba enredo da Mangueira de 2019 também comentou o clima no dia da escolha do samba, na quadra da escola, e o potencial político do Carnaval:

“Na quadra, muitas pessoas chegaram a nós e disseram que o samba ia representar um hino de quem se sente lutador nesse momento em que temos a extrema-direita do Bolsonaro de um lado e a democracia do Haddad de outro. O samba pode ajudar (a derrotar o fascismo), a cultura é preterida como vetor potencial político e acho que o Carnaval é preterido como elemento libertador e identitário”.

O enredo da Mangueira lembra que o Marechal Deodoro da Fonseca era amigo do Imperador Pedro II e proclamou uma República continuísta e sem a participação popular, traduzida em golpe:

“Se a República foi golpe, conclui-se que golpe no Brasil não é novidade. Nem é novidade que a natureza dos golpes ainda esteja mal contada. (…) Nas ruas - por terem lido um livro que ‘ninou’ e não ‘ensinou’ falando da suspensão dos direitos humanos, da corrupção e dos assassinatos cometidos no período – aparecem faixas para pedir “intervenção militar”, décadas depois da redemocratização”.

Veja a letra completa do samba da Mangueira para o Carnaval de 2019:

“Brasil, meu nego deixa eu te contar

A história que a história não conta

O avesso do mesmo lugar

Na luta é que a gente se encontra.

Brasil, meu dengo, a Mangueira, chegou

Com versos que o livro apagou

Desde 1500, tem mais invasão do que descobrimento

Tem sangue retinto pisado

Atrás do herói emoldurado

Mulheres, tamoios, mulatos

Eu quero o país que não tá no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara

Tua cara é de Cariri

Não veio do céu nem das mãos de Isabel

A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho

Quem foi de aço nos anos de chumbo

Brasil chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles e malês

Mangueira, tira a poeira dos porões

Ô, abre alas

Pros seus heróis de barracões

Dos Brasis que se faz um país de Lecis, Jamelões

São verde e rosa as multidões”

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