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Fogo já afetou 95% das espécies do bioma Amazônia nos últimos 20 anos

83 das 85 espécies de pássaros, assim como 53 das 55 espécies de mamíferos do bioma foram afetados pelas queimadas

02/09/2021 08h05
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Por: Hyana Reis Fonte: G1
Reprodução
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Um estudo internacional com a participação de cientistas brasileiros publicado nesta quarta-feira (1º) na revista científica "Nature" revela que os incêndios que atingiram a Amazônia desde 2001 podem ter afetado 95,5% das espécies de plantas e animais vertebrados conhecidas em todo o bioma.

De acordo com a publicação, o fogo na Amazônia causado pela ação humana nos últimos 20 anos já afetou:

  • o habitat de 85,2% das espécies de plantas e animais ameaçados de extinção;
  • 64% do habitat de espécies não ameaçadas de extinção;
  • 53 das 55 espécies de mamíferos ameaçadas de extinção;
  • 5 das 9 espécies de répteis ameaçadas de extinção;
  • 95 das 107 espécies de anfíbios ameaçadas de extinção;
  • e 236 das 264 espécies de plantas ameaçadas de extinção.

Entre os mamíferos ameaçados de extinção e que foram afetados diretamente pelo fogo na Amazônia, o estudo dá como exemplo algumas espécies de sagui e e de macacos-aranha, além de alguns exemplos de aves, como o murici.

O estudo aponta que quase 190 mil km² da floresta amazônica queimaram entre 2001 e 2019 (cerca de 20 mil campos de futebol destruídos pelo fogo em 18 anos) e que a cada novos 10 mil km² de área queimada, até 40 espécies a mais podem ser prejudicadas.

Pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e da Universidade da Califórnia em Irvine, Paulo Brando, que é um dos autores do estudo, afirma que os dados, apesar de alarmantes, podem estar subestimados.

"Ainda conhecemos uma parte pequena da biodiversidade da Amazônia. Todo ano temos publicações de artigos identificando espécies novas no bioma", diz Brando.

Um levantamento do ONG MapBiomas publicado em agosto que considerava a Amazônia Legal (que corresponde a 59% do território brasileiro e engloba a área de 8 estados: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e parte do Maranhão) concluiu que uma área maior que a da Inglaterra é queimada todos os anos no Brasil desde 1985. Isso equivale a quase 151 mil km² consumidos anualmente pelo fogo.

Um levantamento da mesma entidade apontou que, entre 1985 e 2020, a área queimada no Brasil foi superior a 1,6 milhão de km², o que corresponde a quase 20% do território brasileiro.

Situação crítica no arco do desmatamento

Foto mostra tamanduá morto depois de incêndio na Amazônia perto de Mirante do Norte, Rondônia, no dia 20 de agosto. — Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

A Amazônia se estende ao longo da Bacia Amazônica, a maior bacia hidrográfica do mundo, com cerca de 6 milhões de km² e mais de 1 mil afluentes. O Brasil abriga 60% da floresta tropical, mas fragmentos menores do bioma também são encontrados no Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guianas e Suriname.

Por meio de imagens de satélites que monitoram a Amazônia, os cientistas identificaram que o ponto em que a biodiversidade foi mais afetada está no Brasil, na região conhecida como Arco do Desmatamento, uma área de 500 mil km² que vai do leste e sul do Pará em direção ao oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre.

"A situação é mais crítica nos pontos em que há a soma de três fatores: maior riqueza de espécies de plantas, maior área de desmatamento e maior frequência de incêndios. E encontramos tudo isso na região do Arco do Desmatamento", explica Brando.

Pesquisadores vêm alertando sobre a relação direta entre desmatamento e fogo na Amazônia. Formada por uma vegetação alta, úmida e densa, os incêndios não são naturais no bioma, mas causados pela ação humana, que usa o fogo como estratégia de "limpeza" do solo que foi desmatado para posteriormente ser usado na pecuária ou no plantio. É o chamado "ciclo de desmatamento da Amazônia".

Ainda que o desmatamento leve a grandes perdas de área de habitat natural, o fogo que vem depois da derrubada exacerba esse impacto. “O desmatamento é o principal vilão da biodiversidade da Amazônia, com os incêndios florestais logo atrás”, explica Brando.

O pesquisador do Ipam explica que é graças à biodiversidade que a floresta amazônica se mantém em pé desempenhando exercendo sua influência no clima global, sobretudo no próprio Brasil.

"A biodiversidade funciona como um cinto de segurança da Amazônia. Ou seja, quanto mais biodiversa, maior a capacidade da floresta de se adaptar a crises e resistir aos distúrbios climáticos. Porém, conforme vamos retirando diversidade das suas espécies, vamos enfraquecendo a resiliência da Amazônia", diz Brando.

Ele dá como exemplo um artigo assinado por pesquisadores do Ipam e da Universidade Federal de Lavras, publicado no ano passado na revista científica Biotropica, que descreveu como as antas ajudaram a Amazônia a se regenerar após a temporada de queimadas de 2020.

“As antas, por meio das fezes, trouxeram quase 10% das sementes importantes para a recuperação da floresta após os incêndios”, exemplifica o pesquisador do Ipam.

Além disso, qualquer perda de biodiversidade na Amazônia tem impacto local, e também global, uma vez que o bioma abriga mais da metade das florestas tropicais remanescentes e 10% da biodiversidade do mundo, além de ser importante na regulação do clima, retirando e armazenando parte do gás carbônico da atmosfera - gás causador do efeito estufa.

“A gente se beneficia da biodiversidade da Amazônia de várias maneiras, seja com os usos medicinais que fazemos das suas plantas, seja da sua capacidade de proteger e regenerar a floresta, esta última importante para frear o aquecimento global", pontua Brando.