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Quais são as pautas da manifestação de 7 de setembro

As manifestações em defesa do presidente Jair Bolsonaro contará com narrativa em defesa de pautas conservadoras, valores cristãos e da “família tradicional”

07/09/2021 08h57
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Por: Hyana Reis Fonte: Infomoney
(Foto: Marcos Corrêa/PR
(Foto: Marcos Corrêa/PR

As manifestações em defesa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) marcadas para este feriado de 7 de setembro (Dia da Independência) devem ditar os rumos da crise institucional em curso e podem dar novas sinalizações para a disputa sucessória de 2022.

Movimentos simpáticos ao mandatário mobilizam apoiadores para ocuparem as ruas das maiores cidades do país com um discurso de enfrentamento ao Supremo Tribunal Federal (STF), ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), à imprensa e à oposição, em um redesenho da postura “antiestablishment” encarnada por Bolsonaro desde as eleições de 2018.

A narrativa em defesa de pautas conservadoras, valores cristãos e da “família tradicional” também deve marcar forte presença nos atos. A ela deverão se somar palavras de ordem pela “liberdade de expressão”, em meio a reveses enfrentados por aliados no Poder Judiciário.

O evento busca reunir diversos grupos que compuseram a coalizão que alçou Bolsonaro à presidência. A expectativa é que estejam presentes evangélicos, ruralistas, caminhoneiros e até policiais e militares ‒ ingredientes adicionais de tensão política.

Bolsonaro anunciou que comparecerá aos atos em Brasília, pela manhã, na Esplanada dos Ministérios, e em São Paulo, à tarde, na Avenida Paulista. Caravanas estão sendo organizadas para encher os atos e render imagens de apoio ao presidente. Em sua live semanal na última quinta-feira (2), o mandatário disse que será uma “manifestação nunca vista no Brasil”.

Os atos ocorrem em meio ao pior momento da relação entre o mandatário e integrantes de cortes superiores, em uma crise que escalou após a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que tratava do voto impresso ser derrotada no Congresso Nacional.

Os ataques diretos de Bolsonaro aos ministros Luís Roberto Barroso (presidente do TSE) e Alexandre de Moraes (relator do inquérito das Fake News) ‒ este, inclusive, com um pedido de impeachment protocolado e já arquivado no Senado Federal ‒ aumentaram o nível de tensão entre Executivo e Judiciário.

Do lado dos magistrados, respostas vieram com a inclusão de Bolsonaro na lista de investigados pelo inquérito das Fake News do Supremo, a abertura de investigação no TSE contra o presidente em meio a ataques ao sistema eletrônico de votação e até a prisão de aliados, como o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, e do blogueiro Wellington Macedo.

Em outro flanco, o corredor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Luís Felipe Salomão, determinou que as empresas que administram redes sociais suspendam repasses de dinheiro a páginas bolsonaristas investigadas por disseminar fake news.

Nas últimas semanas, Bolsonaro proferiu discursos com ameaças golpistas e elevou o tom contra Barroso e Moraes, sob a alegação de defesa de liberdades individuais. Ele tem trabalhado ativamente para mobilizar apoiadores aos atos de 7 de setembro, em uma tentativa de demonstrar força política. O presidente diz que joga “dentro das quatro linhas da Constituição” e alega que os magistrados é que extrapolam as regras democráticas.

“Essas uma ou duas pessoas têm que entender o seu lugar. E o recado de vocês, povo brasileiro, nas ruas, na próxima terça-feira, dia 7, será um ultimato para essas duas pessoas”, disse na sexta-feira (2) após agenda na cidade de Tanhaçu (BA). “Curvem-se à Constituição, respeitem a nossa liberdade, entendam que vocês dois estão no caminho errado porque sempre dá tempo para se redimir”, prosseguiu.

Sob gritos de “fora, Alexandre” de apoiadores, Bolsonaro disse que há possibilidade real de ruptura institucional e que “210 milhões de pessoas não serão reféns de uma ou duas”. Durante discurso em Caruaru (PE), afirmou que o país tem um “encontro com o destino” no próximo 7 de setembro.

“Essa é a voz do povo. Não podemos admitir que um ou dois homens ameacem a nossa democracia ou a nossa liberdade. Se aparece um dos meus 23 ministros que tenham comportamento fora da Constituição, eu chamo a atenção dele e, se ele não se enquadrar, eu o demito. O mesmo acontece com a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. Lá, quando alguém age fora das quatro linhas da Constituição, geralmente ele é chamado pelo Conselho de Ética e a vida dele é acertada. O nosso Supremo Tribunal Federal não pode ser diferente. Se lá tem alguém que ousa continuar agindo fora das quatro linhas da Constituição, aquele Poder tem que chamar essa pessoa e enquadrá-la e lembrar que ele fez o juramento de cumprir a Constituição. Se assim não ocorrer em qualquer um dos Três Poderes, a tendência é acontecer uma ruptura. Ruptura essa que eu não quero nem desejo. Tenho certeza, nem o povo brasileiro assim o quer. Mas a responsabilidade cabe a cada Poder. E eu apelo a esse outro Poder que reveja a ação dessa pessoa que está prejudicando o destino do Brasil”, afirmou.

Além do ambiente de crise institucional, os atos ocorrem em um momento difícil para o governo. Levantamentos mostram que Bolsonaro está com os níveis mais baixos de aprovação de todo seu mandato (apenas 23% de avaliação “ótima” ou “boa”, segundo a última pesquisa XP/Ipespe) e que, se as eleições fossem hoje, seria derrotado por quase todos os potenciais adversários nas simulações de segundo turno.

Na economia, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 9,3% nos 12 meses encerrados em agosto, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As preocupações com a crise hídrica aumentaram e podem pressionar ainda mais os preços e a atividade econômica. E a percepção de risco fiscal tem trazido dificuldades adicionais ao câmbio e aos juros futuros. Já a taxa de desemprego gira na casa de 14,1% (o equivalente a 14,4 milhões de brasileiros).

O que esperar?

Há um consenso entre analistas políticos de que as manifestações de 7 de setembro serão decisivas para o futuro das relações entre Bolsonaro e o Judiciário, e que têm implicações que vão desde o andamento da agenda legislativa até a movimentação de peças para as eleições de 2022.

“Conforme forem os acontecimentos e as reações de Bolsonaro na data, as águas podem permanecer como estão: turvas, porém navegáveis; se o presidente avançar sobre alguns limites, a política pode ver as águas mais revoltas com consequências menos claras”, observam os analistas da XP Política.