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De kit covid a ‘eutanásia’, Prevent Senior deixa CPI da Covid estarrecida

“A gente só viu isso em momentos que não é bom lembrar, durante a Segunda Guerra Mundial”, afirmou Rogério Carvalho, sobre testes terapêuticos em seres humanos

23/09/2021 10h13
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Por: Hyana Reis Fonte: Rede Brasil Atual
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

As denúncias reveladas no depoimento do diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, foram consideradas por senadores da CPI da Covid como “estarrecedoras”, como classificou a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA). 

O representante da operadora admitiu que, depois de 14 dias de internação ou 21 de terapia intensiva, as orientações no hospital eram para mudar o dignóstico de covid para outra doença. Depois da quarentena, os pacientes eram transferidos para enfermarias ou quartos, para “tratamento paliativo”, e teriam a CID (classificação internacional de doença) alterada.

O senador Rogério Carvalho (PT-SE) – que é médico com residência em medicina preventiva e social – classificou essa entre as mais graves entre as muitas constatações da comissão no caso Prevent Senior. “É preciso saber qual o critério pelo qual o paciente seria tratado em UTI ou não. Porque ´é um dilema ético que não tem solução, porque no Brasil a eutanásia não está regulamentada. É um crime contra humanidade”, disse.

Segundo o senador Otto Alencar (PSD-AM), também médico, esses pacientes eram direcionados à “bomba de morfina”, em vez de serem submetidos a um tratamento correto na UTI. “É como se fosse uma eutanásia”, afirmou o relator Renan Calheiros (MDB-AL).

Carvalho comentou outros procedimentos da Prevent Senior como “muito graves”. Entre eles vários estudos desenvolvidos pela operadora, inclusive com células tronco, para tratamento da doença. Outros tinham o objetivo de comprovar a eficácia de medicamentos do chamado “kit covid”, que era oferecido de graça para tratamento precoce. “Foram feitos vários testes em seres humanos, sem autorização do Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), das famílias, fazendo testes terapêuticos em seres humanos. A gente só viu isso em momentos que não é bom lembrar,  durante a Segunda Guerra Mundial”, comparou Carvalho.

Segundo revelado à CPI da Covid, o prontuário de pacientes da Prevent Senior que foram a óbito em decorrência da covid eram fraudados, deixando de registrar a doença como causa da morte. Foi o caso do médico negacionista Anthony Wong. “Por isso tinha taxa baixa de mortalidade”, disse Carvalho. Segundo Pedro Benedito Batista Júnior, de 18 mil internados, em torno de 4 mil pacientes da operadora morreram de covid.

O diretor alegou que as denúncias contra a operadora sobre manipulação de prontuários são baseadas em adulterações feitas por médicos desligados da empresa que invadiram arquivos “criminosamente”.

Eliziane associou a suposta subnotificação de mortes por covid, decorrente das práticas da Prevent, à divulgação de informação falsa, pelo auditor do Tribunal de Contas da União (TCU) Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques. Ele produziu um “estudo” sobre mortes por covid-19 segundo o qual havia uma “supernotificação” no número de óbitos. Tal documento foi divulgado por Jair Bolsonaro em uma de suas muitas investidas contra os protocolos científicos durante a pandemia.

Assédio a médicos

Batista Junior também negou que os médicos tenham sofrido assédio para usar o “kit covid”. Segundo denúncias, documentos e áudios em posse da CPI, profissionais que se recusavam a usar os medicamentos como hidroxicloroquina, azitromicina e outros eram coagidos a mudarem o receituário, sob ameaça de demissão. O diretor da Prevent negou. Disse que os médicos tinham “autonomia direito de receitar”.

“Autonomia não pode ser maior do que a vida e do que a ciência”, rebateu Eliziane Gama, sobre medicamentos comprovadamente ineficazes contra a doença causada pelo Sars-Cov2.  A senadora Soraya Thronicke (PSL-MS) propôs que a comissão ouça os médicos que fizeram as denúncias. “Eles podem estar sofrendo pressões”, justificou. Ela afirmou ser injustificável que pacientes diagnosticados inicialmente com covid tenham “um diagnóstico na entrada e outro na saída” (após o óbito).