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Práxis Polítika

Aos vencedores as batatas!

03/02/2019 20h55
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Internet (Foto: Reprodução)
Internet (Foto: Reprodução)

Na célebre obra de Machado de Assis, Quincas Borba, o autor deu luz a expressão: aos vencedores as batatas! Tal expressão em seu livro baseia-se na teoria da seleção natural, explicando através da luta entre duas tribos famintas que brigavam pela sua subsistência; porém, caso as duas tribos dividissem a mesma produção de batata em paz, consequentemente, morreriam todos de fome por inanição, em virtude que o alimento não supriria a todos e, nesse caso, a paz seria a destruição pela fome. Na analogia do autor, por outro lado, a guerra seria a conservação, pois uma das tribos exterminaria a outra e recolheria os despojos. Nessa perspectiva machadiana, relegaria aos vencidos, o ódio ou a compaixão; já, ao vencedor, as batatas.

A fim de demonstrar essa analogia em sua obra em diálogo com a vida do personagem principal do livro, o autor apresenta como fio condutor Rubião, que é um modesto morador do interior do Brasil e que recebe uma grande fortuna. Rubião decide ir para a cidade grande vencer na vida com sua herança, mas no meio do caminho é ludibriado e vencido por personagens sem escrúpulos, que se apossam da sua fortuna, causando a sua derrota moral e financeira. A partir da ruína de Rubião, Machado de Assis dá sentido à expressão “aos vencedores as batatas”, em que apresenta a realidade da vida na cidade moderna com suas possibilidades e armadilhas. Igualmente, demonstra como os vencedores ardilosamente realizaram as suas ações para desfrutar as batatas nos campos de guerra, sobrando aos vencidos apenas o espólio.

Podemos dizer que o atual cenário político brasileiro está representado nessa analogia machadiana, haja vista os fartos mecanismos efetivados para vencer os oponentes políticos, relegando aos abatidos as derrotas morais e políticas. Vemos um cenário totalmente empoderado pelo atual quadro político, que conquistou o governo na última disputa presidencial, alijando quase por completo os seus oponentes da seara política – destacamos, por exemplo, o encarceramento do ex-presidente Lula da Silva, considerados por muitos analistas como uma prisão política. Agregando ainda mais elementos acerca dessa queda de braço entre oponentes equidistantes, temos, inclusive, o anacronismo de haver no Brasil crimes políticos e exilados políticos, contudo nessa disputa os vencedores não ganharam as batatas, mas sim o controle político do Brasil.

Para endossar essas vitórias, o Presidente eleito Jair Bolsonaro agregou ao seu time além de uma corte de ministros extremamente controversos, também o apoio político necessário nas duas casas do legislativas. Melhor explicando: seus apoiadores venceram na presidência da Câmara dos Deputados e no Senado, lastreando os caminhos para as medidas que serão apresentadas pelo Presidente. No entanto, tal vitória torna-se estranha ao seu próprio discurso político, pois em campanha Bolsonaro propunha a renovação da política, mas com este cenário permanecerá inerte o mesmo elenco político tradicional.

O caminho vitorioso de Bolsonaro parece tranquilo, pois ele vai ganhando com pulso firme todos os obstáculos contra os seus inimigos, conquistando batalhas e formando exército para o seu lado com vistas a adensar a sua legião. Porém, conforme realçado, pode derrapar num futuro próximo em suas próprias promessas, uma vez que não está cumprindo ipsis litteris o que vaticinou em campanha: renovação política e eliminar a corrupção do Brasil.  Pior ainda quando a armadilha vier da sua própria família, visto que até o momento o seu filho, Flávio Bolsonaro, não explicou as suas ligações escusas com milícias e com a malversação do dinheiro público em seu gabinete – mas por ora, vão ficando com as batatas!