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Práxis Política

Democracia em Vertigem:

velhos cenários e um novo troféu.

Práxis Polítika

Práxis PolítikaProf. Dr. César Figueiredo convida os leitores para uma reflexão críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política.

05/02/2020 22h24
Por: Cesar Figueiredo
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O Brasil acaba de ser brindado com uma participação no Oscar, que ocorrerá no dia 09/02/2020, mas será uma aparição inglória, pois revelará ao mundo como foi construído o cenário das falsas ou verdadeiras (dependendo do olhar do analista) polarizações políticas – ocorridas desde as manifestações de junho de 2013. O documentário de Petra Costa possui o paradigmático título de Democracia em Vertigem (2019), retratando com todo apogeu o passo a passo dessa polarização estimulada até o aludido impeachment de Dilma Rousseff e, posteriormente, o colapso completo da democracia representativa brasileira com a eleição de 2018.

            São muitos detalhes e enredos salientados nesse documentário, que mais uma vez ativa paixões de prós e contras, assim como fora a construção do muro erigido durante o processo de impeachment - tão bem retratado no filme pela diretora. Relembrado a todos no filme que, no momento da aprovação do impeachment de Dilma Rousseff, as forças públicas de segurança criaram um muro nas portas do Congresso Nacional, de modo que a população que estivesse acompanhando o processo de Dilma não conflitasse naquela situação. Não obstante aos esforços da segurança, contudo, a grande vergonha ficou dentro da casa do legislativo, quando deputados brigavam e proferiam impropérios recíprocos: desonra internacional em grau máximo, visto que demostrava a incapacidade laboral dos representantes dentro do Congresso Nacional.

            O filme mostra com riqueza como fora construído esse processo por dentro dos bastidores do poder, revelando que esse percurso veio a se maturar com o denominado Golpe de 2016 - não com o aludido impeachment, haja vista que a Presidenta deposta não teve nenhum processo legal e eleitoral julgando-a como culpada após a sua deposição: Dilma foi inocentada e pode se candidatar como senadora por Minas Gerais, nas eleições de 2018. Tais condicionantes inclusos no filme mostram o grau eruptivo em que viveu a sociedade brasileira, tanto antes do Golpe de 2016 quanto após o golpe de 2016 – sendo que no filme apenas enunciou com maestria o colapso da democracia e os cenários que iriam se desenhar nas eleições vindouras em 2018.

            Petra Costa estava certa, pois a forma que fora fomentado o processo conflitivo na nossa democracia representativa colocou inclusive, e principalmente, em xeque a própria classe política estabelecida, estimulando, por conseguinte, o voto em políticos outsiders e fora da política tradicional. Todavia, nessa situação, houve um mascaramento escuso e intencional, uma vez que o Presidente eleito em 2018 deitava-se em berço esplêndido como deputado federal há mais de 30 anos, assim como os seus filhos – todos eleitos e bem consolidados dentro do establischment político brasileiro. Porém, isso não era o foco principal de quem os elegeu, pois o importante era conflitar, erodir e reconstruir um novo país, sobretudo, a partir dos escombros de uma democracia que fracassou na visão dos seus apoiadores mais aguerrido; saliento ainda ter sobrado inclusive fagulhas para o corpo político tradicional que golpeara sem pena Dilma Rousseff.

            Nesse momento, talvez, Democracia em Vertigem incomode tanto porque demonstra com riqueza a manipulação dos Donos do Poder, como também a forma maniqueísta que o povo foi usado. Mais importante ainda, na análise fílmica, é verificar como a classe média consegue ser incapaz de uma reflexão política coerente: 1) quando uma política pública capitaneada por partidos progressista lhe convém, essa classe média apoia; porém, 2) quando essa política começa a dar os primeiros sinais de problema, ela dinamita com todo o status quo, - ao invés de buscar soluções de consenso e democráticas, mesmo que venha a se implodir junto. Independentemente do resultado do Oscar, o troféu já foi ganho pela diretora, pois demonstrou que a história não se apaga e está viva, especialmente, para quem se dispõe a ter memória.

 

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