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Práxis Política

Quando a vida imita a arte: o Vale Tudo na política.

Análise Política

Práxis Polítika

Práxis PolítikaProf. Dr. César Figueiredo convida os leitores para uma reflexão críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política.

11/02/2020 14h30Atualizado há 4 meses
Por: Cesar Figueiredo
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Na década de 80 virou sucesso e campeã de audiência a novela Vale Tudo (1988), obra magistral escrita por Gilberto Braga, até hoje considerada uma das melhores novelas da teledramaturgia brasileira, principalmente pela sua verossimilhança com a realidade. A novela procurava revelar os bastidores da política brasileira e da elite econômica, sobretudo, realçando todas as formas escusas operacionalizadas por essa classe para se manter no poder. Como contrapartida desse jogo maquiavélico, demonstrava as aflições da classe subalterna com todas as suas agruras, sempre se equilibrando no fio da navalha entre a vida e a sobrevivência.

            A protagonista era Raquel Acioli, personagem interpretado por Regina Duarte, dando uma carga visceral à guerreira e batalhadora mulher do povo, que conseguia lutar contra as dificuldades impostas pelos inimigos e vencia na vida. No rol das maquiavélicas figuras antagonistas o elenco era farto, destaco, muito detidamente, a figura de Marco Aurélio, interpretado por Reginaldo Faria. Este personagem era a síntese do Brasil do Vale Tudo, aquele país do final da década de 80, pós-redemocratização e cheio de políticos escusos. Marco Aurélio demonstrava com primor, através do texto de Gilberto Braga, todas as formas perniciosas existentes entre a política e a economia, especialmente, como os Donos do Poder se locupletavam para enriquecimento espúrio.

            No final da novela, conforme esperado, em que o bem sempre vence o mal, Gilberto Braga puxou mais fortemente ainda para a realidade, uma vez que os bons foram recompensados, porém, Marco Aurélio conseguiu sair ileso e dando uma banana para o Brasil. Fazendo o recorte à realidade atual, no governo Bolsonaro, a própria atriz Regina Duarte é Secretária Especial de Cultura, rearranjando a antiga pasta do Ministério da Cultura extinto pelo Presidente, ou seja, Bolsonaro aproveitou o carisma da atriz a seu favor e tentou requentar as relações perdidas com a classe artística, justamente em virtude dos desgastes travados por antigos secretários. De qualquer modo, embora com carisma evidente pelos tempos longevos de carreira, Regina Duarte está sofrendo severas críticas pelos seus colegas, especialmente pelo modelo populista do governo Bolsonaro.

            Para decifrarmos esse complexo modelo populista, entre tantas características, torna-se visível que o Presidente tem uma predileção por dizer tudo o que pensa e sem medir as palavras, mesmo que possa ser extremamente cruel para grupos identitários que sofram com os deslizes da sua fala. Um dos últimos capítulos da novela presidencial foi quando Bolsonaro disse que pessoas com HIV são muito custosas para o país, num flagrante caso de preconceito com os soropositivos da doença. Lembramos, contudo, que o Brasil possui desde Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) um dos programas mais avançados do mundo, tanto de prevenção quanto de combate a AIDS. Após críticas da sua fala infeliz e cravejado por novas perguntas dos jornalistas visando  cobrar uma retração, entretanto, Bolsonaro simplesmente se negou a responder e deu uma banana para os jornalistas.

            Assim como a arte imita a vida, o inverso nessa situação é análogo, pois o Presidente fez o mesmo gesto igual ao Marco Aurélio em Vale Tudo - dessa vez para todo o povo brasileiro e, surpreendentemente, contando com o apoio ministerial de Regina Duarte. Não resta dúvida, portanto, que o autor Gilberto Braga estava certíssimo quando colocou o nome da novela de Vale Tudo, numa clara alusão ao Brasil; demonstrando, inclusive, que passados quase 32 anos estava corretíssimo acerca da sina do país: fadado ao jeitinho brasileiro, à pobreza, à falta de respeito e ao eterno berço esplêndido dos Donos do Poder. Quanto ao povo, ainda está à espera do capítulo final, quando haverá uma redenção e todos os seus males serão sanados – como num conto de fadas do mundo de fantasia das novelas.