E-mail

redacao@correioma.com.br

WhatsApp

99 98190-5359

Radio Timbira
Setembro Amarelo
Práxis Política

Para quando o Carnaval chegar: viva a alegria!

Análise Política

Práxis Polítika

Práxis PolítikaProf. Dr. César Alessandro Sagrillo Figueiredo convida os leitores para reflexões críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política. Dr. em Ciência Política e professor da Universidade Federal do Tocantins/UFT

19/02/2020 17h21Atualizado há 7 meses
Por: Cesar Figueiredo
767

O costume do carnaval no Brasil remonta a sua origem há tempos longevos, ainda como herança portuguesa datada do período colonial, visto que era uma festa popular desde Portugal e que marcava o período do início da quaresma religiosa, demarcava, portanto, por meio de brincadeiras festivas, o momento que se recolhia do mundo profano e partia-se para o devocional. Destacamos que a partir da herança lusitana esta prática foi se acomodando com maestria na sua principal colônia, principalmente, a partir do século XIX com os Entrudos: denominação para brincadeiras festivas no período de carnaval. Ou seja, de uma festa com cunho religioso e com herança pagã, foi se formatando como o modelo da identidade nacional e como o símbolo internacional da cultural brasileira.

            Foi no século XX que veio se formatar a moldura do carnaval que conhecemos, ainda no seu início marcado pelos corsos, carros e clubes que desfilavam, bem como pelos bailes em sociedades tradicionais, até evoluir no formato atual de Escola de Samba. Devemos salientar que no seu início as Escolas de Samba ainda apresentavam um percurso extremamente modesto, visto que sua origem nascia das comunidades mais pobres dos morros do Rio de Janeiro, local em que fora segregado os negros no pós-escravidão. Justamente por isso, no seu nascedouro, o desfile de Escola de Samba ainda apresentava muita violência policial e tentativa de ocultação intencional da cultura, considerando o samba como um desvio marginal da cultura e antro de desviantes sociais – diferente, obviamente, dos ricos desfiles dos corsos e dos clubes tradicionais.

Contudo, deve-se ao aparelho público a sua institucionalização, sobretudo no período ditatorial de Getúlio Vargas, momento em que o carnaval e o samba tornaram-se definitivamente a marca identitária de nação, com vista a dar uma unidade na cultura brasileira. Sabemos que a cultura é um constructo social formado, muitas vezes, dialeticamente entre a motivação popular e a intencionalidade do ente público, sendo que, no caso do Brasil, entre as décadas de 30 e 40 foi formatado com vista a acomodar a cultura dentro de um projeto político de Estado ditatorial. Nesse processo houve a convergência do início dos símbolos do país com o carnaval, inclusive e principalmente como produto internacional de marketing, tornando a identidade brasileira ligada a alegria, a festividade e a sensualidade.

Pagamos um preço muito caro com essas características, uma vez que durante um longo período o carnaval ficou atrelado a um momento de permissividade, bem como de erotização exacerbada da população brasileira nos meios de comunicação internacional. A identidade do Brasil, via carnaval, ficou maculada por essa erotização midiática, melhor dito, como mais um produto para o mercado externo. O pior vértice dessa política foi legado a mulher negra brasileira, identificando-a apenas como um produto para exportação através do samba, do carnaval e da alegria.

Contudo, embora com críticas e com alegria, o carnaval desde o Brasil Império também fora um momento de manifestações políticas, sobretudo quando foliões satirizavam politicamente o Imperador; e, posteriormente, com os Presidentes do Brasil República. Tais características demonstram que o carnaval perpassa além do lúdico e do festivo, pois transmuta-se igualmente como uma manifestação que ativa inclusive o político. Torna-se relevante analisarmos as críticas sociais e políticas que ocorrem quando o carnaval chega, momento em que o povo extravasa o sofrimento da triste realidade vivida no país; porém, é lamentável que as manifestações coletivas se extravasem, ainda, exclusivamente ao período que antecede a quaresma e não ao ano todo: Viva a momentânea alegria!