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Práxis Política

Notas sobre as marcas do populismo na política recente: alguns apontamentos.

Análise Política

Práxis Polítika

Práxis PolítikaProf. Dr. César Figueiredo convida os leitores para uma reflexão críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política.

08/03/2020 15h38
Por: Cesar Figueiredo
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O populismo é um termo que emerge com vigor nesse início do século XXI. Tratado outrora como um conceito político do passado e associado a países periféricos, este tema vem à luz nesse limiar de século, trazendo novos questionamentos. Para o estudo desse conceito sugerimos que ao invés de buscarmos comparações com o velho conceito de populismo, devemos, entretanto, procurar evidenciar justamente o contrário, pois necessitamos nos deter com olhar acurado para a realidade atual, sobretudo a fim de capturar as novas facetas do populismo e trazer à tona as novas roupagens dessa velha política atualmente renovada.

            A partir desse prisma, enfocamos as diversos formas de governos e de mandatários quem vêm modificando substancialmente os modelos institucionalizados das democracias liberais nesse início de século XXI. Esses novos modelos emergentes, carecem ainda com certeza, de explicações mais robustas acerca da forma desses regimes, visto que alguns autores políticos, precipitadamente, lançam mão de explicações apressadas em nominá-los como governo autoritários ou neofascistas. Em face da prudência epistemológica exigida, salientamos que não estamos lidando apenas com mudanças políticas, mas com amplas transformações sociais. Portanto, nessa caracterização, frisamos que a discussão do populismo não se deve somente a fenômenos dos sistemas políticos, mas, sem dúvida, a processos socioculturais mais amplos e profundos, visto que impactam intensamente em toda a sociedade.

            A fim de buscar entender esse conceito, salientamos a criação do personagem coletivo o “povo”, sendo exatamente este o personagem principal que impulsiona a vocalização dos movimentos populistas modernos. Melhor explicando, enfatizamos que esses movimentos de contornos populistas emergem através de uma gramática de resistência  dúbia, emergindo coletivamente via anseios políticos do “povo” contra as elites exploradoras. Também,  devemos evidenciar que a noção de “povo” surge a partir das crises de representações políticas, obviamente, naturais do movimento pendular da sociedade, sendo que poderíamos inferir que isto é um fenômeno extremamente dialético e intrínseco da própria sociedade. Logo, aproveitando dessas crises sistémicas e estruturais, esse “povo” é capturado para dentro da narrativa populista através de uma hábil liderança, num jogo moral  muito particular e que colocaria esse “povo” contra a elite.

            Salientamos, ainda, que a ressignificação desse “povo” é uma categoria imaginada e construída a partir de seu antagonista principal, qual seja, a “elite/oligarquia/burocracia” - melhor dito, essa imagem desse “povo” fora dialeticamente construída contra todas as formas consolidadas do status quo outrora institucionalizada. Nesse cenário conflitivo e no anseio de potencializar essa nova força política coletiva, portanto, emerge esse líder que consegue, na visão  do “povo”, ser a síntese das demandas coletivas contra essa elite desgastada. Logo, a partir desse  líder constrói-se uma nova narrativa política e emerge uma bandeira de luta - consequentemente, estabelecesse, a partir desse modelo conflitivo, uma vida cotidiana permeada pelas divisões sociais e suas ramificações políticas extremamente polarizadas, como  se fosse uma nova normalidade.

            Nessa nova quadra política fica visível como, através da lógica de empoderamento promovida pelo (e para o) “povo”, esses líderes tendem a deslizar facilmente para o autoritarismo, justificando a necessidade em construir instrumentos arbitrários para a defesa dessa moralidade imposta em nome do “povo”. E, como era de se esperar, nesse cenário político cheio de duelos quem puxa o gatilho acionando o conflito é o próprio líder, visto que ele se alimenta politicamente dessa polarização com a desculpa de defender “o povo” desse inimigo imaginário construído e, desta forma, continuar reforçando ininterruptamente a sua imagem como o grande líder populista almejado pelo “povo”.