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Práxis Política

E agora José? Do Pleno Emprego ao auxílio emergencial do Coronavírus.

Análise Política

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Práxis PolítikaProf. Dr. César Figueiredo convida os leitores para uma reflexão críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política.

08/04/2020 17h27
Por: Cesar Figueiredo
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A célebre poesia de Carlos Drummond de Andrade, começava com o famoso questionamento do autor – E agora José?  Indagava o pobre José acerca do mundo que ele vivia e que não mais existia, conforme reminiscências, o autor confrontava o que José poderia fazer mediante tal constatação. Lançado originalmente em 1942, demonstrava o mundo de solidão e abandono do indivíduo nas grandes cidades brasileiras, em que tantos Josés perdiam a suas esperanças e referências do mundo outrora vivido. Numa sociedade que rapidamente se urbanizava, com uma industrialização e um mundo que ficava extremamente complexo, a narrativa de perplexidade diante da nova vida trazia inúmeros questionamentos ao indivíduo.

O poeta conseguia construir uma poesia densa de sentidos, ao mesmo tempo simples de linguagem, que trazia para o questionamento todos os indivíduos que ficavam confrontados com as rupturas drásticas nas suas vidas cotidianas.  Refletindo acerca da falência de tudo e com o fim das utopias, assim como possivelmente impactado sobre os horrores da ascensão da II Guerra mundial (1939-1945), questionava, assim, que novo mundo teria a partir desse corte abrupto o simplório José, que poderia ser João, Maria, ou qualquer outro nome. Seriam indivíduos ainda presos a lembranças de um mundo que não era mais deles, visto que a realidade percorrera a passos céleres as suas percepções e eles não mais conseguiam acompanhar tantas mudanças: “ não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José?”.

O Brasil atual está tão pleno de Josés, que não conseguem compreender como a realidade os tragou, tampouco conseguem compreender como as suas vidas se estilhaçaram em uma década, embora sendo longos10 anos contínuos, contudo, o impacto da descida foi por demais cruel. Se pararmos para pensar, há 10 anos atrás o Brasil figurava no saudoso Pleno Emprego, situação econômica comparada aos países desenvolvidos, em que todos que procuravam emprego tinham a carteira assinada: lembram-se quando a classe média começou a importar empregadas domésticas da Filipina e de outros países da América Latina, uma vez que a outrora mão de obra doméstica local optara em postos de trabalhos melhor remunerados?

Ainda, vale lembrar que aportava ao país, a fim de suprir o Pleno Emprego, trabalhadores não especializados africanos e do Haiti, com vista a trabalhar em serviços que os brasileiros não possuíam mais interesse. Era um fausto econômico, as capas de revistas se multiplicavam e exclamavam a seguinte frase em chamadas de capas: Nunca fomos tão felizes! Ainda, havia as hordas de brasileiros que retornavam ao país, depois de décadas como imigrantes ilegais no Japão, Europa e Estados Unidos, agora dispostos aplicar a suas reservas do período na economia local, que naquele momento estava em plena ebulição: era o Brasil que voltava a ser grande e ficava cheio dos compatriotas que andavam errantes pelos continentes.

Porém, tal e qual vaticinou Drummond “A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou” e tudo mais mudou no Brasil. De outrora Pleno Emprego passamos para o rápido desemprego na segunda metade da década de 2010, a partir do Golpe de Estado de 2016. Situação adversa do mundo do trabalho em que a mídia golpista e corporativa saudava cinicamente esse desemprego de empreendorismo – lembram-se quando os desempregados começaram a trabalhar como motoristas de aplicativos ou fazer bolo para sobreviver? No momento atual chegamos na situação limites do Coronavirus, em que o “empreendedor” desempregado não tem clientes e precisa urgentemente de uma fonte de renda para não morrer de fome, surge em sua defesa, com muito pouco caso, um auxílio emergencial de R$ 600,00: E agora, José, depois do Pleno Emprego como poderá viver só com R$ 600,00? A festa, realmente, acabou!