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Práxis Política

O Brasil para além do mito: uma nação nada cordial.

O Brasil para além do mito: uma nação nada cordial.

Práxis Polítika

Práxis PolítikaProf. Dr. César Figueiredo convida os leitores para uma reflexão críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política.

15/04/2020 17h44
Por: Cesar Figueiredo
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Muito se debate sobre os clássicos do pensamento social brasileiro, principalmente acerca das discussões da primeira geração fundante (década de 30), momento em que fora propagada uma visão idílica do Brasil em que existia uma democracia racial, bem como o nosso país era constituído por homens cordiais. Houve diversas leituras desses clássicos, reificações e, sobretudo, falsificações; obviamente pela míope leitura de intelectuais que se prenderam a esquemas prontos dessas obras clássicas. Nesse percurso, a partir desses mitos edificados, criaram uma miríade de interpretação do Brasil, de acordo com a lavra de cada analista, endossando vereditos dispares acerca da democracia, da cordialidade, da docilidade do brasileiro e do seu trato com as raças.

Mesmo com fragilidades analíticas e importação de arcabouços teóricos para encaixes forçados na cultura brasileira, reconhecemos, contudo, os esforços desses intelectuais da primeira geração – embora enfatizamos que tenha ocorrido críticas contundentes ao longo do século XX.  Porém, os mitos construídos extrapolaram os meios eruditos e migraram comodamente para um senso comum muito confortável na sociedade brasileira. Ou seja, sem estabelecer uma crítica de conteúdo e tampouco compreender as minúcias dos seus textos, assim como sem interesse de acompanhar o percurso intelectual do escritor, compraram o discurso pela capa, melhor dito, ao invés de ler o livro em sua totalidade extraíram apenas frases, tópicos e construíram generalizações grosseiras.

Talvez, uma das visões mais acríticas é aceitar que o Brasil é um país de pessoas não acostumados com a violência, com a guerra e que no país não existe racismo, assim como propalaram que a nação brasileira sempre comportou uma estrutura de governo democrática e que respeita o seu povo. Além de mitificarem a existência de um povo culturalmente como dócil, cordial e que aceita o seu semelhante, ainda falsamente idealizaram os processos de institucionalização democráticas sem que tenha ocorrido conflito em sua história. Não obstante a esses disparates, sabemos que toda a produção cultural é um processo construído, muitas vezes pelo próprio Estado, assim como a história oficial de um país parte do crivo de um centro de tradição oficial, portanto, tornando-se passível de imposições forçadas.

Nesse sentido, quando pensamos acerca da passividade do brasileiro devemos, entretanto, refletir que no século XX, em pouco menos de 100 anos de Brasil República, tivemos duas ditaduras: a Era Vargas (1930-1945); e, posteriormente, a ditadura civil-militar (1964-1985). Tais períodos foram portadores de grandes atrocidades, prisões, torturas e assassinatos, demonstrando justamente a grande crueldade das instituições não democráticas nacionais. Talvez, haja um esquecimento proposital desses períodos traumáticos, exatamente, pelo fato das transições desses regimes serem elaborados pela elite nacional, que se preocuparam com essa falsa normalidade para continuarem no poder no período político seguinte.

Outro ponto importante a destacar é quando aludem que no país não existe racismo, repetindo a cantilena intencionalmente mal lida das obras clássicas, nesse ponto como explicar que o Brasil foi um dos últimos países a libertar os escravos no mundo? Qual é a herança desses quase 400 anos de escravidão? Por acaso, foram diluídas ao vento no século XX? Tais constatações críveis, portanto, quebram com qualquer mito de um país idealizado, reafirmando, consequentemente, que vivemos numa nação extremamente racista, beligerante e autoritária. Assim sendo, para um bom leitor crítico, a realidade atual e, principalmente, as escolhas políticas brasileiras no século XXI não causam nenhuma surpresa, haja vista que são o retrato melhor acabado de uma nação nada cordial.