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Práxis Política

Quando a corte cai e o povo fica atônito: cai não fica nada.

Análise Política

Práxis Polítika

Práxis PolítikaProf. Dr. César Figueiredo convida os leitores para uma reflexão críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política.

29/04/2020 17h32Atualizado há 1 mês
Por: Cesar Figueiredo
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A saudosa música Cartomante, de autoria de Ivan Lins e magistralmente interpretada por Elis Regina, possui o seguinte refrão: “cai o rei de Espada, cai o rei de Ouros, cai o rei de Paus, cai não fica nada”. Essa música buscava enfocar a opressão do povo durante da ditatura civil-militar brasileira (1964-1985), quando começava a ter os primeiros ventos liberalizantes, após momentos de angústia e tirania em grau máximo que fora vivido pelo povo brasileiro. Demonstrava, principalmente com o refrão da música, o momento em que antigos opressores começavam a cair e irrompia uma nova realidade política nacional.

            Essa música fora uma catarse, pois possuía estrofes que enfocavam a agonia vivida pela população, especialmente com seus silêncios forçados em face dos liames ditatoriais: “nos dias de hoje não lhes dê motivo, porque na verdade eu te quero vivo”. Em síntese, trazia com maestria para a música todo o terror vivido, em que não se podia falar e tinha que se cuidar das garras ditatoriais para manter-se vivo. Mas, como a próprio estrofe enunciava, tudo passava, pois novos ventos liberalizantes irrompiam na alvorada de um novo dia, sem amarras e provocando a queda de reis esvanecidos pelo autoritarismo desmedido.

            Nesse processo de quedas e metamorfoses políticas, a ditadura civil-militar, em virtude do seu longuíssimo percurso, teve a capacidade singular de transformar apoiadores da corporação militar em opositores do regime – justamente quando estes começaram a ver o barco afundar. O elenco de personagens políticos que deixaram de apoiar o regime é diverso e de vários matizes, inclusive podemos realçar a figura de José Sarney, que de esteio do partido apoiador do regime militar (ARENA), passa para oposição no final do regime, vindo a compor a Aliança Democrática junto com Tancredo Neves. A Aliança Democrática sai vencedora e Sarney torna-se Presidente após o falecimento de Tancredo, dando o início a Nova República e abrindo um novo ciclo histórico político brasileiro.

            No cenário recente, novamente, personagens caem e outros se metamorfoseiam. Podemos colocar nesse elenco o rol dos ministros do atual governo de Jair Bolsonaro, que teve nas últimas semanas dois ministros extirpados por razões díspares, mas com um fundo em comum: dificuldades na gestão da pasta com o atual chefe do executivo. Cada um apresentou razões diversas, motivações pessoais e, sobretudo, uma necessidade de ajuste de contas com a sua história particular, uma vez que o papel político que estavam cumprindo não coadunava mais com as suas biografias almejadas, pois caso continuassem no governo poderiam macular as suas trajetórias políticas construídas: Sergio Moro como próceres da justiça e Nelson Mandetta como o guardião da saúde nacional.

            Esse processo eruptivo ainda terá muitos cenários, conjurações e novos personagens que irromperão no cenário nacional, a despeito de todos as dificuldades em curso no Brasil grassadas pelo Coronovirus. Embora com tantas polêmicas, curiosamente as instituições continuam funcionando, melhor dito, o que sobrou das mesmas após o colapso da democracia no pós-Golpe de 2016.  Mas, voltando ao tema da música e enfatizando os reis decaídos, relembramos ao processo político atual o que aconteceu no fim da ditadura civil-militar: todos os reis caíram e não ficou nada -  a não ser velhos personagens espertos metamorfoseados ao sabor dos novos ventos e das novas realidades, antes que o barco afundasse completamente.