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Práxis Política

Choram novas Marias e Clarices pelos filhos do Brasil.

Análise Política

Práxis Polítika

Práxis PolítikaProf. Dr. César Figueiredo convida os leitores para uma reflexão críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política.

06/05/2020 17h09Atualizado há 4 semanas
Por: Cesar Figueiredo
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Morreu nessa segunda-feira, dia 04/05/2020, um dos nossos maiores compositores, o cronista do cotidiano Aldir Blanc, que conseguiu, através de suas músicas, resgatar a história do Brasil com o primor de um menestrel. De formação acadêmica na área médica, contudo foi na música, em parceria com João Bosco, que ele conseguiu a sua mais pura perfeição, sobretudo quando compunha o amor lírico e as vivências cotidianas do povo brasileiro, tão sofrido no período ditatorial. Destacam-se músicas primorosas, mas, certamente, a sua composição da eternidade autoral é O Bêbado e a Equilibrista, cantada com requinte e rasgos de emoção por Elis Regina.

Para a compreensão dessa música, devemos nos reportar para o Brasil de 1979, quando essa canção foi composta, ainda dentro da Anistia e dos primeiros ventos liberalizantes da ditadura civil-militar. Tal composição rapidamente se tornou um libelo da Anistia, justamente por em seus versos estar contida a saudade de quem partiu e vislumbrando a volta do irmão do Henfil. Betinho, era o irmão do famoso cartunista Henfil, apelido do respeitadíssimo sociólogo Herbert José de Souza, que partira para o exílio no início dos anos 70, a fim de conseguir fugir da sanha militar que queria assassiná-lo.

Nesse percurso da anistia, essa música se transformou num hino oficial, pois cada pessoa que retornava ao Brasil era recepcionada com esse brado por uma multidão em coro uníssono, igualmente ocorria a mesma cena com cada preso político que saía da cadeia: emoção em grau máximo para as famílias e à sociedade civil que ansiava uma abertura do regime militar. Porém a alegria não era para todos, pois enquanto a música saudava aqueles que iriam retornar ao Brasil, por outro lado, realçava aquelas pessoas quem iriam continuar chorando, uma vez que perderam definitivamente os seus parentes pelo torcionário militar.

            Algumas estrofes realçavam a dor e o sofrimento de Marias e Clarices, no plural, enfocando que as dores dessas personagens poderiam, na verdade, ser as dores de tantas mulheres brasileiras vítimas da mesma situação. Melhor explicando: Clarice Herzog teve o seu marido, o jornalista Wladimir Herzog, assassinado sob tortura nos porões da ditadura em outubro de 1975; não obstante o cruel crime, o regime militar ainda tentou fraudulentamente passar a imagem que ele tinha se suicidado. Também, tal atentado ocorreu com Maria Fialho, quando a ditadura assassinou o seu marido nas mesmas condições no cárcere, o operário Manoel Fiel Fialho, em janeiro de 1976.

A partir desses crimes, a sociedade civil, mesmo com toda a opressão, resolveu não se calar e partiu novamente para um processo de enfrentamento ao regime, dando origem, por conseguinte, às novas ondas de manifestações contra a ditadura. Esses crimes, portanto, foram imortalizados pela lavra de Aldir Blanc e João Bosco nessa magistral composição. Quanto ao final da história, todos sabemos o que ocorreu: 1) Clarice Herzog e Maria Fialho, durante o período democrático, conseguiram o reconhecimento do Estado pelos crimes cometidos.

Nesse atual momento, entretanto, longe de ser uma cena do passado, essa música cala fundo no coração de novas Marias e Clarices, principalmente em virtude de novas mortes que estão se perpetrando diariamente em face da pandemia da saúde. Novamente, a nossa pátria mãe gentil encontra-se incrustada no caos político, social e, também, com a saúde em crise. Portanto, essa música além de ser um hino da Anistia, poderia servir muito preciosamente para o Brasil de hoje, exatamente para a registrar a dor de tantas e tantos brasileiros que perdem os seus filhos no solo do Brasil