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Práxis Política

Atualidades do filme “Z” (1968) de Costa-Gravas: refletindo sobre a ascensão do fascismo e ditaduras militares.

Análise Política

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Práxis PolítikaProf. Dr. César Figueiredo convida os leitores para uma reflexão críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política.

13/05/2020 18h32Atualizado há 3 semanas
Por: Cesar Figueiredo
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            O cineasta grego Konstantinos Gravas, mundialmente conhecido como Costa-Gravas, realizou uma sólida carreira como empreendedor de filmes com matizes políticas, sem pretender fazer nenhum abrandamento de suas mensagens nas telas. Destaca-se a trilogia realizada com os seguintes filmes: 1) “Z “(1968), em que discutia a ascensão do fascismo e instalação da ditadura militar na Grécia; 2) A confissão (1970), a respeito do totalitarismo monolítico do Leste europeu; e, 3) Estado de Sítio (1972), sobre as ditaduras militares da América Latina. Esses três filmes, em linhas gerais, buscavam aludir para o momento vivido no final dos anos 60 e início dos anos 70, com tantos golpes e revoluções.

            Detidamente acerca de “Z”, abordava como pano de fundo o processo de ruptura institucional na Grécia - realçando que qualquer associação da tela com a realidade não era coincidência, mas sim intencional. Mostrava perfeitamente no filme, como era a ligação de grupos paralelos paramilitares e a sua associação com todos os escalões do governo, até chegar ao topo com vinculação dos militares: todos os personagens envolvidos num processo urdido a fim de desestabilização do regime democrático. Nesse percurso, mostrava como eram fomentados esses grupos e patrocinados, com vistas a promover convulsões sociais e fragilizar politicamente quem visasse concórdia nacional.

            Como personagens do filme, havia a figura de um destacado político progressista e com verniz pacifista, disposto a congregar esforços com outras lideranças para rever as políticas armamentistas internacionais. Porém, a organização da manifestação é sabotada, ainda como consequência das tramas fascistas urdidas, o líder do movimento político pacifista é assassinado. O filme, posteriormente, se desenrola num thriller liderado por um magistrado para descobrir os meandros por trás desse crime: todos os participantes foram indiciados, incluindo assassinos, paramilitares, figurões do alto escalão do governo até os militares, ou seja, as figuras principais do complô de extrema direita. Entretanto, para desmanchar com essa desmoralização da direita, que por ventura iria dar vitória para esquerda nas próximas eleições, os militares deram um golpe preventivo.

Saindo das telas para a realidade, de acordo com as próprias palavras de Costa-Gravas no diálogo do cinema com a história – sem falsear os personagens, houve um processo similar na Grécia e servindo de inspiração para o cinema político do diretor. Temendo a eleição do líder Andreas Papandréou, que tinha simpatia dos comunistas, a ditadura militar grega se instalou com o beneplácito do judiciário, de altos escalões governamentais, de parte do legislativo e da elite econômica. Assim, em 1967 uma junta militar de extrema-direita tomou o poder na Grécia (1967-1974), a denominada Ditadura dos Coronéis, ocorrendo nesse período um governo autoritário formado por ditadores atrozes que se sucediam.

A tragédia grega foi uma vergonha internacional, afundando o país em descalabros contra os direitos humanos, contra a cultura e negando a ciência, isolando a Grécia pelo atraso em relação ao restante da Europa desenvolvida. Tais apontamentos do filme servem de inspiração e reflexão para a realidade atual vivida, principalmente, quando constatamos uma nova ressurreição de grupos paramilitares, milicianos e outras denominação de banditismo armados, patrocinado por políticos de extrema-direita. Sobretudo, inclusive, servindo como reflexão para países latino-americanos que insistem na tradição de Golpes Militares com a falácia de restabelecerem a ordem, como diria Costa-Gravas: qualquer semelhança coma realidade não é mera coincidência.