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Práxis Política

A saga de Roque Santeiro e as desventuras da viúva Porcina.

Análise Política

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Práxis PolítikaProf. Dr. César Alessandro Sagrillo Figueiredo convida os leitores para reflexões críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política. Dr. em Ciência Política e professor da Universidade Federal do Tocantins/UFT

20/05/2020 22h12
Por: Cesar Figueiredo
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O autor Dias Gomes escreveu uma peça de denúncia social denominada O berço do Herói, que posteriormente teve a sua adaptação para a televisão com o nome de Roque Santeiro, com tentativa de exibição em 1975; porém  fora censurada pela ditadura civil -militar, podendo ser veiculada apenas em 1985 com grande sucesso pela televisão. Como roteiro apresentava a saga do personagem Roque Santeiro, que tinha sido considerado morto pelas autoridades da cidade após atentado e tornara-se um santo milagroso pela comunidade local.

Porém, Roque estava vivo e deveria permanecer ocultamente como morto, a fim de não prejudicar o andamento comercial e o progresso proporcionado pelo circuito turístico dos milagres que era atribuído ao mártir. No rol de personagens, havia todo um elenco de tipos que representavam um microcosmo da sociedade brasileira, justamente pelo fato que demonstrava com maestria o jogo do poder e a manipulação política das camadas populares. Obviamente, com um enredo desses, a ditadura civil-militar iria alijar a sua exibição ainda no auge do aparelhamento da tortura, posteriormente com à transição democrática a novela pôde explorar muito bem esses arquétipos políticos: o político corrupto, o empresário envolvido em escândalos e o arbitrário coronel Sinhozinho Malta.

Ainda, para coroar a trama havia a falsa viúva de Roque Santeiro, a viúva Porcina, que possuía como aposto o seguinte enunciado: aquela que foi sem nunca ter sido. Esse personagem era interpretado pela atriz Regina Duarte, que formava um triângulo amoroso entre Roque Santeiro e o Coronel Sinhozinho Malta. A novela privilegiava um texto com peso forte na comédia de costumes, nas denúncias sociais e, sobretudo, de como o povo poderia ser iludido por falsos ídolos erigidos em consórcio com a política, a igreja e a elite financeira. No desenrolar desse triangulo, a falsa viúva ficava na dúvida entre quem escolher se o falacioso milagreiro ou se a velha elite: como resultado final escolhe o poder do capital e da política, ficando com Sinhozinho Malta.

A novela apresentava um final aparentemente feliz, com Roque indo embora da cidade e mantendo a mesma estrutura imutável - petrificada com os velhos donos do poder, permanecendo o mandonismo local e o povo enganado por um ídolo que nunca, de fato, existira. Esses arquétipos da novela podem ser muito bem pensando para a realidade atual, principalmente quando refletimos sobre as formas de manipulação da pobreza por falsos religiosos e líderes de igrejas fundamentalistas, sobretudo com a vinculação da fé e da miséria para proveito político. Conforme amplamente divulgada, a variável religião foi extremamente importante no último cenário eleitoral, sendo decisiva para definir os resultados, obviamente sem esquecer o aparato de fakenews, que juntos desmancharam o modelo democrático que tínhamos no Brasil desde a Constituinte de 1988.

Voltando à viúva Porcina, este personagem seria um capítulo à parte, tanto pelas peripécias e desventuras da falsa viúva quanto pela atriz que interpretou o personagem: Regina Duarte, que foi considerada em face do rol dos seus personagens também a namoradinha do Brasil e a liberada Malu Mulher nos anos 70,  agora entrou no último período como uma infortuna ex-ministra que durou  apenas 2 meses no governo Bolsonaro - sem apresentar à comunidade artística nenhum projeto consistente na sua gestão. Como a vida imita a arte, perdida entre personagens que prometiam milagres e políticos com rasgos autoritários, assim como Porcina, Regina foi sem nunca ter sido.