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Práxis Política

De Alienista a Jim Jones: atualidades da política.

Análise Política

Práxis Polítika

Práxis PolítikaProf. Dr. César Figueiredo convida os leitores para uma reflexão críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política.

27/05/2020 12h53
Por: Cesar Figueiredo
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Machado de Assis escreveu o brilhante conto, O Alienista, no final do século XIX, que tinha como lume as discussões de algumas questões muito pontuais naquele período, por exemplo, o desenvolvimento da ciência, o estudo da loucura e o confinamento humano em caso de desestruturação mental. Obviamente que nesse conto o autor produzia uma construção de valores da sociedade oitocentista, pois era uma sociedade muito complexa, visto que, ao mesmo tempo, tendia às modernidades, mas ainda estava impregnada das amarras do Brasil Imperial e escravocrata. Ou seja, assim como brindava a modernidade da ciência também mantinha no país o que poderia ter de mais arcaico e atrasado.

            A figura principal era o Dr. João Bacamarte, famoso e erudito médico que chegava a fictícia cidade de Itaguaí, um microcosmo do Brasil da época, disposto a estudar os desajustados emocionalmente e, após vários estudos, construiu uma casa para abrigar, de acordo com a obra, os alienados mentais, a denominada Casa Verde. Com a rápida expansão das suas teses, começou a capturar grande parte dos moradores da cidade para o seu centro de estudo e tratamento de saúde mental, até chegar a incrível marca de ter praticamente toda a cidade confinada. As pessoas eram retidas na Casa Verde por motivos variados, todos servindo como instrumento de análise para o estudo do ilustre Dr. Bacamarte.

            Porém, após revoltas sociais na cidade, em face do encarceramento em massa e contando com inúmeras reviravoltas na trama machadiana, o doutor liberou todos da Casa Verde e decidiu internar a si mesmo para estudo: como ninguém tinha uma personalidade perfeita, exceto ele próprio, o alienista concluiu ser o único anormal e decidiu trancar-se sozinho na Casa Verde para o resto de sua vida - em síntese, proferiu  a sentença sobre si. Além de tratar sobre a ciência e saúde mental, Machado de Assis possuía como pano de fundo uma fina ironia para o Brasil Império, através do recorte da pequena cidade, demonstrando como poderia ser patético o país ser governado por autoridades que não possuíam legitimidade para tal empreitada, o foco principal recaía sobre os estigmas do abuso do poder.

            Refletindo sobre o abuso de poder e a manipulação da boa-fé das pessoas, também, podemos discorrer sobre casos verídicos, como o missionário religioso americano Jim Jones, personagem extremamente caricato e com tendências messiânicas que fundou uma igreja no final dos anos 50 nos Estados Unidos. Com uma curiosa mescla de messianismo cristão e teorias fatalistas apocalípticas, Jim Jones viajou o mundo tentando pregar a sua curiosa doutrina fundamentalista cristã, abrindo uma colônia salvacionista na Guina Inglesa nos anos 70. Sua comunidade religiosa reuniu alguns milhares de simpatizantes, todos imbuídas nos valores de uma nova sociedade religiosa, sobretudo a partir do prisma redentor do pastor; porém, pregando a salvação e o fim do mundo, Jim Jones promoveu o suicídio coletivo de todos os seus adeptos.

            Alguns pontos destacados no texto corroboram com a reflexão da política atual, uma vez que estão muito presentes no cenário, sobretudo, a falta de equilíbrio de dirigentes políticos com pendor autoritário, visto que estão mais imbuídos em uma limpeza salvacionista contra fantasmas imaginários do que fazer o real uso da política como um bem coletivo. Nesse processo de eleger inimigos ocultos, consequentemente, acabam condenando coletivamente a todos, sendo mais dramático ainda o apoio generalizado de grande parte da população – como um suicídio coletivo. Conforme exposto, parece que o personagem de Dr. João Bacamarte e o salvacionista genocida Jim Jones mantêm-se ainda muito presentes na atual conjuntura, neste aspecto, portanto, estaríamos rumando para a volta da Casa Verde ou para o genocídio coletivo da Guiana?