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Práxis Política

Junho de 2013: o mês que não terminou.

Análise Política

Práxis Polítika

Práxis PolítikaProf. Dr. César Figueiredo convida os leitores para uma reflexão críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política.

03/06/2020 21h05
Por: Cesar Figueiredo
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Muito se debateu acerca das jornadas insurrecionais de junho de 2013, contudo, ainda sem uma nítida explicação totalizante do que fora aquelas manifestações, em virtude da grandiosidade dos acontecimentos e, sobretudo, pela dificuldade de compreender todos os personagens envolvidos e as consequências adversas para o país. Sabemos que os resultados, a partir desse evento, deram um tiro certeiro em curto prazo no modelo de democracia que tínhamos e, consequentemente, desmancharam com establishment do sistema partidário brasileiro e fomentaram a emergência de novos personagens outsiders no jogo político.

Buscando uma analogia, nos reportamos a maio de 68 em Paris, quando houve um processo de ruptura com o status quo da época, em que questionavam o modelo institucional e político da sociedade, ainda vigente até aquela presente data. A partir de maio de 68 seria deflagrado o denominado Poder Jovem aos manifestantes insurgentes, momento em que estudantes da Universidade de Nanterre, em Paris, ergueram barricadas nas ruas, pregando um novo ordenamento moral, social e político. Rapidamente a fagulha se espalhou e deu o tônus aos rebeldes anos 60 no mundo todo, chegando até o Brasil com manifestações grandiosas contra a ditadura civil-militar e tomando conta do país: a humanidade nunca mais seria a mesma.

Corroborando esse processo de transformação mundial que começara em 68, em que almejavam a forja de um homem novo e de uma nova sociedade, o escritor Zuenir Ventura dedicou uma obra seminal, 68: O Ano Que Não Terminou, disposto a tentar elucidar tudo o que ocorrera ao longo daquele ano no Brasil. Enfocando desde as festas de réveillon na virada de 67 para 68, as manifestações de ruas contra a ditadura, o congresso estudantil da UNE, as produções artísticas e desaguando, finalmente, no funesto AI-5, em 13 de dezembro de 1968.  Ao palmilhar todo o ano no livro, encerra-o sem um fecho final, uma vez que em sua visão, mesmo com o AI-5 e o acirramento da ditadura civil-militar, os pensamentos libertários de 68 se mantiveram a longo curso na sociedade brasileira.

Talvez Zuenir fora muita saudosista do passado, pois queria olhar o que ocorrera pelas lentes ampliadas da memória, que sempre desbota as tristezas e amplifica as recordações saudosas, criando mitos, heróis, personagens, eventos, etc. Ainda, dialogando com Ventura, podemos quiçá afirmar que 68 começou a terminar tão logo se editou o AI-5 e se institucionalizou a tortura como práxis política, consequentemente, sepultando todos os sonhos de uma generosa geração. Trazendo para o presente e nos ancorando no mesmo prisma para junho de 2013, questionamos, portanto, mas sem saudosismo, o que ficou daquilo tudo? para que serviu as jornadas de junho e quem se beneficiou? Respostas inconclusas, entretanto, o que fica explicito é que a democracia brasileira, ainda com esforços reais de consolidação até aquela presente data, nunca mais foi a mesma, pois desde aquele momento vive-se em constante fragilidade e num processo contínuo de gravosa erosão.

De junho de 2013 até o presente, já se passaram 7 anos e o evento se mantém como uma lacuna explicativa à deriva, o sabido é que novos personagens irromperam a cena e um novo universo político tóxico se fez presente no Brasil: extremamente conflitivo. Esse novo normal é o que está presente em nosso cotidiano, agora filtrado pela intolerância e pela falta de diálogo, sendo esta discórdia a marca latente mais forte dessa ruptura democrática da nossa atual sociedade. Diferentemente de Zuenir Ventura, que promove saudosistamente 68, parece que as manifestações de junho de 2013 trazem somente uma lembrança amarga e que, eruptivamente, desde então nunca mais fomos os mesmos – recordando  que as manifestações começaram, singelamente, pelo aumento de R$ 0,20 da passagem de ônibus nas grandes capitais: infelizmente, sem um ponto final, aquele conflitivo mês ainda não terminou!