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Práxis Política

A necropolítica do poder: as peripécias de Odorico Paraguaçu e as atrocidades de outros mandatários.

Análise Política

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Práxis PolítikaProf. Dr. César Figueiredo convida os leitores para uma reflexão críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política.

10/06/2020 19h31Atualizado há 2 meses
Por: Cesar Figueiredo
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A excelente peça teatral de Dias Gomes, O Bem Amando, posteriormente adaptado para a televisão no ano de 1973, teve uma grande repercussão no período, justamente pelo fato de tocar em pontos muito sensíveis: necropolítica, abuso de autoridade e prevaricação do bem público. Obviamente que este conteúdo teve sérios dissabores para o autor, uma vez que vivíamos numa sanguinária ditadura civil-militar (1964-1985), que sentenciava com aniquilamento físico os seus adversários, sobretudo os que tinham intuito de divulgar informações comprometedoras do regime militar, fazendo com que Dias Gomes passasse, consequentemente, por sérios constrangimentos junto a censura.

            Contudo, por mais que a ditadura civil-militar possuísse o intuito de direcionar os rumos da novela, assim como extirpar sob coação possíveis capítulos, o autor conseguia furar o bloqueio imposto e passar pelas brechas da censura mensagens cifradas: vitória para a inteligência do autor na luta conta o torcionário militar. A sanha das forças armadas se justificava, pois o autor procurava demonstrar como se processava o jogo político e as viciações das instâncias públicas, melhor dito, a metamorfose do bem público para o proveito privado de um grupo político e de seus familiares. Em síntese, essa novela seria um microcosmo do Brasil, não somente do país naqueles anos 70, mais precisamente da própria natureza política brasileira e sua herança nepotista.

            A fim de dar uma graça ao enredo na trama, Dias Gomes criou como gancho a necessidade que o prefeito Odorico Paraguaçu tinha em produzir mortos, em virtude que prometera na campanha política a inauguração de um cemitério. Como essa era a única promessa de campanha e não conseguindo cumprir o intento, tendo em visto que ninguém morria, contratou um jagunço arrependido para produzir novos mortos na cidade – mas sem sucesso. A trama, ainda, girava em torno das peripécias dos falsos moralistas religiosos em conluio com o prefeito, justamente com o intuito de tirar proveito da boa fé do povo, demonstrando com maestria a mistura espúria entre religião e o mundo político.

            Partindo para o mundo real, essa necessidade de produzir mortos pode ser caracterizada modernamente com o conceito de necropolítica, que seria uma política de morte incentivada pelo Estado a fim de fomentar o extermínio de populações não desejadas. Podemos ver no século XX inúmeros Estados autoritários que se erigiram com esse viés genocida, forjados e instituídos com o objetivo de eliminar fisicamente adversários, por exemplo: nas ditaduras militar do Cone-Sul, com os seus milhares de mortos e desaparecidos políticos. Atualmente vemos essa continuidade de eliminação física de oponentes e, também, com muito pesar, a ocorrência de mortes intencionais de populações étnicas, sobretudo negros e indígenas com vista a produzir uma condenável eugenia e deplorável supremacia racial branca.

            O autor que melhor trabalha e denuncia esse instrumento de necropolítica é Achille Mbembe, refletindo acerca de como estes mandatários legislam sobre o direito de vida e de morte das populações vulneráveis, tornando indiscutível a existência dessa necropolítica como uma violência estatal. Nesse conceito, portanto, aponta as contradições do Estado, em vista que o ente público deveria ser o responsável pela preservação da vida e da equidade entre os cidadãos; porém, torna-se uma máquina de extermínio de grupos sociais não úteis para o seu projeto de governo. Dialogando acerca de necropolítica com as trapalhadas de Odorico Paraguaçu, com certeza, constatamos que a realidade imitou a arte, uma vez que em face da pandemia do COVID-19, o grand monde político e econômico, em conluio com alguns mandatários genocidas,  estão mais preocupados, infelizmente, com a restauração do capital do que a preservação da vida.