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Práxis Política

Atualidades do século XXI: quando optamos conscientemente pelo genocídio.

Análise Política

Práxis Polítika

Práxis PolítikaProf. Dr. César Figueiredo convida os leitores para uma reflexão críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política.

24/07/2020 14h16Atualizado há 3 semanas
Por: Cesar Figueiredo
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O eminente historiador Eric Hobsbawm elaborou uma obra majestosa ao analisar o   século passado, através do livro A Era dos Extremos, que possuía como subtítulo o Breve século XX. Nesse livro a sua periodização de um século diferia-se da contabilidade normal de um centenário, ficando restrito a seguinte cronologia: 1) de 1914, quando irrompeu a Primeira Guerra Mundial; 2) até 1991, quando ocorreu a queda da União das Republicas Socialistas Soviética (URSS). Apresentava com maestria as ocorrências históricas de um século extremamente exíguo, porém altamente beligerante no que o autor denominou, também, de o Século das Catástrofes.

            Torna-se importante frisar essas linhas de cortes e periodizações que na análise do autor abriu o século XX, uma vez que com a eclosão da I Guerra quebrava com todo o espírito da Belle Époque, ainda tão em voga e herdeira das tradições iluministas. Após o armistício da guerra, em 1918, o mundo viveu conflitos ainda mais severos, principalmente com a ascensão do fascismo italiano e nazismo alemão. Esses movimentos políticos, extremamente conflitivos e contraditórios, levaram a grandes massacres e extermínios coletivos com o advento da II Guerra Mundial: um genocídio incomensurável de mortos em todo o mundo.    

            Após o II Guerra Mundial, definitivamente, o mundo estava dividido em dois blocos, melhor dito, dois sistemas políticos que rivalizavam pelo domínio e supremacia do globo: 1) pelo Ocidente, capitaneado pelos Estados Unidos, reinava o capitalismo; enquanto 2)  pelo Leste/Oriente, liderada pela URSS, consolidava o comunismo de Estado aos moldes soviéticos. Desta forma, a segunda metade do século XX viveu sob uma rivalidade latente entre as duas potências, prevalecendo graves rupturas e fomentos de guerras nos países de Terceiro Mundo, especialmente entre os aliados dessas duas potências, no que se convencionou chamar de Guerra Fria.

            Hobsbawm registrou como o fim do século XX, de fato, o momento em que foi quebrado esse sistema bipolar, ou seja, o momento exato em que os Estados Unidos ganhara da URSS e veio a se consolidar como primeira potência do Globo. Partindo dessa premissa, outros analistas políticos e historiadores mais afoitos, equivocadamente, julgaram que a partir desse momento o mundo viveria num processo ascendente do capital e, exatamente por isso, poderia fazer ajustes no sistema capitalista e cortar excessos dos Estados-Nação: seria a emergência dos malfadados Estados Mínimos da década de 90 versus o Sistema de Bem-Estar Social do pós-Guerra. Período de triste lembrança dos fracassados projetos neoliberais, sobretudo tão em voga nos países subdesenvolvidos nos anos 90, conjuntura político-econômico em que coloram à nocaute os países que optaram pelo desmonte do Estado e preferiram equivocadamente a abertura do capital sem nenhuma barreira de proteção interna.

            Dando continuidade ao século XXI, o mesmo se apresenta, atualmente, como mais uma das tantas dobras da história, desta vez com a inesperada Pandemia do COVID-19, que novamente abala os alicerces do capitalismo e coloca em xeque a sua questionável ascensão contínua. Nessa quadra, ao invés da humanidade ser vítima de facínoras e ditadores que se apossaram do poder, colocando em risco a todos como ocorrera no século XX, contraditoriamente, neste século foi a própria população, via eleição direta, que escolheu os seus dirigentes políticos ultraliberais. Em síntese, esses dirigentes políticos ao priorizarem o socorro exclusivamente do capital, consequentemente, tornaram-se novamente instrumento de genocídio em massa – só que agora com o apoio cúmplice e lúcido de seus eleitores, visto que se aliaram conscientemente pelo voto a esta necropolítica ultraliberal do século XXI.