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Práxis Política

O Reino Encantado da Pandemia e a cruzada moral como arma política: Pai ausente não te incomoda, mas pai trans te ofende?

Análise Política

Práxis Polítika

Práxis PolítikaProf. Dr. César Alessandro Sagrillo Figueiredo convida os leitores para reflexões críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política. Dr. em Ciência Política e professor da Universidade Federal do Tocantins/UFT

31/07/2020 20h54
Por: Cesar Figueiredo
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Está causando comentários dissonantes a atual campanha do dia dos pais de 2020, exatamente pelo fato de um célebre homem trans estar fazendo a campanha de uma famosa linha de produto de beleza. Novamente, reiteram os comentários de sempre: 1) que ele não nasceu biologicamente do sexo masculino e, justamente por isso, 2) não podia estar numa campanha como símbolo da tradicional família brasileira. Assim como ocorreu no cenário político de 2018, o elenco fixo de políticos conservadores, em conluio com religiosos fundamentalistas, retoma críticas requentadas e descabidas.

            Podemos dizer que essas críticas são apenas mais um capítulo do malfadado vínculo espúrio entre religião e política, tão bem aproveitado no cenário político brasileiro desde tempos longevos. Por exemplo, podemos selecionar algumas décadas anteriores: 1) Jânio Quadro emergiu ao poder, ganhando as eleições presidenciais de 1960 com um lema ultraconservador de varrer a corrupção e imoralidade que assolava o país – acabou abandonando o cargo. 2) Posteriormente, assume o seu vice progressista, João Goulart, mas foi deposto através do golpe civil-militar (1964), realço que contra Goulart ocorrera grandes manifestações da sociedade civil associados a segmentos religiosos, marchando num passo único em nome de Deus e pela família brasileira.

            Ou seja, a moralidade sempre fora pregada como um ordenador da sociedade, da família e da política, como se o progresso almejado pelo país fosse ser ungido milagrosamente através de um regramento dos costumes. Nesse período ditatorial (1964-1985), a sociedade brasileira viveu limites extremos causados pelo arbítrio da corporação militar: regrando, monitorando, prendendo e coagindo através de códigos de conduta numa rígida censura. Curioso era o apoio de segmentos da classe média a esse regramento e normatização da vida particular, justamente pela mão pesada do Estado ditatorial em deliberar acerca de códigos de valores e do cerceamento da vida privada dos cidadãos.

            Entre os fatos marcantes desse período, destacam-se a cruzada contra o divórcio no Brasil, ocorrido no final dos anos 70, misturando setores religiosos, Estado e a tradicional família brasileira - que não aceitavam o “desmonte” do modelo familiar erigido há séculos no país. Contudo, barreiras foram sendo ultrapassadas, assim como a religião passou a desempenhar um papel bem mais progressista, por exemplo, com apoio aos mais necessitados e na luta pela anistia política; nesse período, também, a sociedade começou a se reposicionar dando contornos mais cosmopolita. Um longo caminho fora percorrido na seara política brasileira a fim de se desvincular dessas amarras entre política, religião e conservadorismo; porém, a partir dos anos 2000 um novo elenco de políticos, associados a segmentos religiosas fundamentalistas, começaram a adensar com força no cenário político.

            Estamos vivendo tempos complexos, em que o país está passando pelo assombro de uma cruel pandemia – sem políticas públicas consistentes na área da saúde e da economia para levantar novamente o país, mas o que causa polémica no atual cenário é um homem trans fazendo propaganda do dia dos pais. Sugiro refletirmos coletivamente acerca de um projeto de nação, com Estado laico e visando reconstruir o Brasil dos escombros que vivemos desde do Golpe de 2016, ao invés de ficarmos pensando num modelo familiar ideal - como se estivéssemos num Reino Encantado. Ainda, finalizo a reflexão com outro questionamento: Por que te incomoda tanto uma criança ser criada por um pai trans e não te causa nenhuma estranheza os milhares de órfãos abandonados no Brasil?