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Análise política

O Cristofascismo e as lógicas da ascensão da extrema direita: a teologia fundamentalista do ódio.

Análise Política

Práxis Polítika

Práxis PolítikaProf. Dr. César Alessandro Sagrillo Figueiredo convida os leitores para reflexões críticas dos temas do universo político. Além das questões pontuais emergidas do cotidiano, visamos instrumentalizar teoricamente as discussões, de modo a lastrear fundamentalmente a coluna a partir da ciência política. Dr. em Ciência Política e professor da Universidade Federal do Tocantins/UFT

07/08/2020 18h40Atualizado há 4 meses
Por: Cesar Figueiredo
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          O nosso mundo moderno deita suas raízes profundas num vínculo estreito entre Estado e religião, como elemento fundante tanto da estrutura de governo quanto dos limites geopolíticos. Podemos visualizar, por exemplo, na própria história brasileira quando houve o processo de colonização do território e o papel atribuído à Igreja, sobretudo o trabalho efetivado pela Companhia de Jesus, desde os primórdios do Brasil Colônia. Conservando durante um longuíssimo tempo no Brasil o vínculo entre a religião e a política, consequentemente, dando uma coloração nitidamente não laica para o Estado brasileiro, a despeito das outras religiões que floresciam.

            Esse modelo de comunhão orgânica entre religião e política não fora um atributo qualificativo apenas da conjuntura brasileira, visto que fora fértil em todo mundo, desde tempos longevos. Realçamos que essa vinculação se mantém frondosa até o tempo presente no plano internacional, contudo com vários modelos e roupagens diferenciadas, sendo marcante atualmente a ocorrência dessa mesclagem entre a religião e um modelo derivado do fascismo, que podemos denominar Cristofascismo: Em linhas gerais, Cristofascismo consiste na bricolagem espúria de um discurso pseudoreligioso associado a pautas extremamente autoritárias e conservadoras, alinhando setores que pregam o armamento da sociedade, nutrem a cultura do ódio, o sectarismo religioso, assim como demais ajustes forçados entre a fé e as pautas que permeiam toda a sociedade.

           Esse é um movimento que ascende frondosamente no século XXI, colocando em xeque teorias que julgavam que a sociedade nesta presente quadra iria caminhar para um processo de secularização, melhor dizendo, um processo através do qual a religião perderia a sua influência sobre as variadas esferas da vida social. Crendo que com o avanço da cultura e da ciência, por conseguinte, a humanidade iria caminhar para um processo de busca da razão e se desvincularia de preceitos religiosos para gerir suas vidas. Ledo engano, principalmente nos países de Terceiro Mundo, onde a religião ainda é um móvel pujante para diversas camadas sociais em condições de vulnerabilidade, que encontram na fé religiosa um suporte na luta cotidiana pela sobrevivência.    

            Nessa perspectiva, poderíamos inferir Cristofascismo como a convergência de uma teologia religiosa fundamentalista associada a governos neopopulistas com pendor autoritário, destaca-se, ainda, neste cenário a valorização da defesa de uma família idealizada cristã. Como plataforma político/religiosa, rechaçam as pautas e políticas identitárias difundidas pelos partidos de esquerda ou progressista, que porventura venham a insistir num projeto mais plural de sociedade. Seria, portanto, este atual momento a volta do Estado em comunhão orgânica com a religião, contradizendo os modelos e as estruturas políticas das democracias liberais modernas ocidentais, que em suas Constituições explicitam que o Estado deve ser laico.

             Portanto, Cristofascismo seria a pregação do discurso de ódio, justamente, a quem esses grupos religiosos fundamentalistas e políticos autoritários consideram diferentes, visando exterminá-los. Reitero novamente que esse processo não é constructo de um único país, haja vista que modelam esse discurso de acordo com a realidade de cada nação, com a finalidade de capturar fiéis e eleitores. Em síntese, a plataforma da teologia autoritária associada a uma narrativa explícita armamentista se alastra com muita força internacionalmente, servindo como um instrumento político eficaz muito bem capturado pelos atuais líderes neopopulistas autoritários, parafraseando-os: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”!