Polícia POLÍCIA

Kathlen foi morta em uma ‘operação ilegal da PM’, afirma OAB

Comissão de Direitos Humanos da Ordem disse ainda que policiais militares estavam de tocaia na casa de um morador antes do tiroteio que matou a grávida

10/06/2021 12h30
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Por: Hyana Reis Fonte: G1
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Para a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), a designer de interiores Kathlen Romeu foi morta em uma operação ilegal da Polícia Militar. “A gente já sabe que foi uma operação ilegal que vitimou a Kathlen”, disse Rodrigo Mondego, procurador da comissão da Ordem.

Mondego explicou que a ação da última terça (8) descumpriu a determinação do Supremo Tribunal Federal (ADPF 635/STF) que restringe operações em favelas. Qualquer investida em comunidades precisa ser avisada ao Ministério Público e ter uma justificativa.

O porta-voz da corporação, major Ivan Blaz, tinha afirmado que não havia operação no Complexo do Lins e que uma equipe foi atacada.

A jovem de 24 anos, grávida de 14 semanas, morreu na terça-feira (8) ao ser atingida por uma bala perdida na comunidade do Lins de Vasconcelos, na Zona Norte do Rio.

O laudo do Instituto Médico Legal afirma que um tiro de fuzil no tórax tirou a vida da designer de interiores Kathlen Romeu, que tinha se mudado há cerca de um mês da região por medo da violência.  corpo da jovem foi enterrado nesta quarta-feira (9) no Cemitério do Catumbi, no Centro do Rio.

“A gente quer Justiça. O nosso povo, o povo pobre, está cansado de dizer. Só mudou o personagem. Eu cansei de ver isso. As frases são todas tabuladas, e a violência continua, cada vez pior”, disse o pai, Luciano Gonçalves.

A jovem tinha ido visitar a avó materna, Sayonara Fátima, na comunidade do Lins de Vasconcelos. Ela tinha se mudado havia cerca de um mês do local por medo da violência. Ele caminhava na rua com a avó quando foi baleada.

A avó disse que teve que insistir para que os policiais ajudassem a socorrer a jovem. Ela ainda chegou a ser levada para o Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, mas não resistiu. "A minha rua tá muito perigosa. Eu não queria ter perdido minha neta e perdi desse jeito estúpido. Eu perdi minha neta num tiroteio bárbaro", disse a avó.

Qual foi a causa da morte da jovem de 24 anos?

O laudo do IML indica que um tiro de fuzil no tórax tirou a vida da jovem. O documento afirma ainda que o projétil de arma de fogo foi transfixante - ou seja, não ficou alojado no corpo - e causou hemorragia interna, o que determinou a morte.

Kathlen estava grávida de quanto tempo?

Kathlen estava grávida de quatro meses quando foi atingida. No Instagram, ela já havia anunciado a gestação e a escolha pelos nomes do bebê: Maya ou Zyon. O tatuador e designer gráfico Marcelo Ramos, namorado de Kathlen e pai do filho que ela estava esperando, usou suas redes sociais para prestar uma homenagem à jovem.

Grávida morre vítima de bala perdida no Rio de Janeiro - País - Diário do Nordeste

 O que a Polícia Militar disse que aconteceu no Lins?

A PM negou que a corporação estivesse em uma operação no local. Em nota, a corporação informou que os agentes foram atacados a tiros por criminosos na localidade conhecida como “Beco da 14”, dando início a um confronto.

Quem provocou o confronto que terminou com a morte da jovem?

O porta-voz da PM, major Ivan Blaz, disse que a facção responsável pelo tiroteio no Lins é a mesma que atua na Providência, no Jacarezinho e no Prazeres “e que tem, por natureza, por ideologia, o ataque gratuito às forças policiais, o uso dos moradores como escudo humano”.

O que diz a família de Kathlen?

Foi sepultado na tarde desta quarta feira o corpo da Kathlen de Oliveira Romeu, a jovem foi atingida por um tiro de fuzil, na localidade conhecida como Beco da Catorze, no Lins. — Foto: LUCIANO BELFORD/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Jaqueline de Oliveira Lopes, mãe de Kathlen, disse que o disparo que matou a filha foi feito por um policial militar, segundo relatos de moradores da comunidade.

"Se a minha filha fosse morta por bandido, eu não falaria nada com vocês porque eu sei que eu moro em um lugar que eu não poderia falar. Então ficaria na minha. Mas não foi. Foi a polícia que matou a minha filha. Foi a PM que tirou a minha vida, o meu sonho", disse Jaqueline.

Que procedimentos a Polícia Civil tomou na investigação?

O caso está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios da Polícia Civil. Foram apreendidos 12 fuzis e nove pistolas da PM usadas no confronto. Cinco dos 12 policiais militares que participaram da ação já foram ouvidos no inquérito.

O que fez a PM após os relatos da família de que a jovem foi morta por policiais?

A PM disse que abriu um procedimento apuratório independente do inquérito que corre na Delegacia de Homicídios da Capital para apurar as circunstâncias da morte da designer de interiores.

A investigação será conduzida pela Coordenadoria de Polícia Pacificadora, já que cinco policiais da UPP Lins participaram da ação.